Nunca tive qualquer interesse por mangás e animes de modo geral, nem mesmo durante minha infância, quando a maioria dos meus amigos e colegas de classe acompanhavam e discutiam fervorosamente obras como Dragon Ball, Cavaleiros do Zodiaco e Sailor Moon.

Em meados de 2012, dei uma chance à Death Note por recomendação de um amigo e o anime imediatamente conseguiu prender minha atenção não só pela divertida trama de detetive, um gênero que sempre gostei bastante, mas também pelos aspectos artísticos, especialmente a ótima direção de Tetsurō Araki.

Logo após terminar o anime, assisti os filmes em live-action e não posso dizer que gostei muito dos resultados por uma infinidade de razões. Portanto, quando descobri que Death Note viraria uma série de TV, eu esperei por nada menos do que um desastre.

Porém, após ver o primeiro episódio da série, confesso que achei tudo muito melhor do que estava esperando. Não sou uma fã purista de Death Note e acho mudanças da obra original bem-vindas para manter um pouco do elemento surpresa.

A diferença entre o anime e a série é notada logo na primeira cena, onde vemos Light Yagami (Kubota Masataka) se divertindo com um amigo no show da girl band Ichigo Berry, da qual Misa Amane é o principal membro. Um universitário pacato, Light mantém um emprego de meio período em um restaurante e quer levar uma vida sossegada. É um enorme contraste com o jovem gênio entediado que conhecemos do anime.

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A interpretação de Kubota é bem menos teatral do que eu esperava e deixou Light muito mais humano. Não presenciamos o característico “complexo de Deus” do personagem e Light toma a responsabilidade do Death Note mais como um fardo a ser carregado do que uma espécie de afirmação de seu direito de julgar quem merece ou não viver.

Kamoda, seu amigo na série, diz que ele consegue boas notas na faculdade e que poderia ter maiores ambições, porém Light rejeita esta ideia, crendo que ganância é um caminho perigoso. Bem diferente dos sentimentos de superioridade do personagem da obra original.

Os dois primeiros assassinatos de Kira na série foram motivados por questões pessoais. Sakota foi morto para proteger Kamoda e Kuro Otoharada foi morto para proteger seu pai. Assim, Kira começa a entrar em ação simplesmente para defender pessoas com as quais se importava, e não por um senso próprio de justiça.

Light no anime declara que será o deus do novo mundo, porém o Light da série diz que não pode cumprir este dever, porém Kira pode, quase que criando para si um alter ego justiceiro. Tanto que, ao matar Lind L. Tailor, ele diz que isso é o que acontece com quem fica no caminho de Kira, se referindo ao assassino como se fosse outra pessoa, além de declarar a Ryuuku em determinado momento que não é um herói.

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A dinâmica entre Light e Ryuuku também parece reforçar a ideia de que Light começou a usar o Death Note mais como um dever do que qualquer outra coisa. Ryuuku joga deliberadamente o Death Note para Light quando Kamoda diz que gostaria que pessoas como o Sakota se fossem para sempre. No mangá, ele joga o Death Note na Terra aleatoriamente para ver o que aconteceria.

Ryuuku também incita Light a manter o caderno ao interromper sua tentativa de suicídio e insinuar que poderia entregar o Death Note a alguém amoral como Sakota caso Light não o quisesse.

Pouco depois da metade do episódio, Light já começa a aceitar seu destino.  A evolução do personagem pode ter se dado de maneira relativamente rápida, porém, observei essa tendência de incluir vários desdobramentos em um único episódio nos poucos dramas asiáticos que tentei acompanhar, portanto creio que esse pacing acelerado seja uma característica deste formato.

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Light começou e terminou o episódio em apresentações do Ichigo Berry, porém seu comportamento nos dois momentos são bastante contrastantes. Enquanto no começo do episódio Light estava se divertindo como o restante do público, no final ele estava claramente alienado do que se passava ao seu redor, observando a Misa de maneira distante enquanto parece concentrado em seus próprios dilemas.

Aparentemente, a proposta da série será mostrar a degradação do personagem aos poucos.

L  é interpretado por Yamazaki Kento. O detetive ainda detém um pouco de sua aura misteriosa, porém o personagem da série é bem menos excêntrico e tem um ar um pouco mais arrogante. L é provavelmente o personagem mais idiossincrático de Death Note, portanto a ausência de alguns dos seus maneirismos mais marcantes causa certa estranheza.

Kento até faz um trabalho decente ao retratar o lado mais voluntarioso e obstinado de L, porém sua personalidade na série o faz menos cativante do que o personagem no anime.

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No entanto, as peculiaridades de L são difíceis de serem interpretadas de modo que lhe faça jus. Embora Kenichi Matsuyama, que interpretou L nos filmes, tenha se esforçado para levar às telas as nuances do personagem, o resultado final ficou um pouco artificial. Portanto, compreendo que seja preferível adaptar o personagem às características do ator.

Será interessante notar como se desenvolverá a batalha entre Kira e L. Originalmente, os dois travaram um verdadeiro duelo entre gênios, porém se Light for retratado como um garoto comum, isso parece improvável.

Já pudemos ver a adaptação de alguns recursos utilizados por Light de acordo com as habilidades do personagem da série. Ao invés de hackear o computador de Soichiro Yagami para obter informações sobre as investigações, ele sutilmente faz com que Matsuda lhe revele que a polícia suspeita de que Kira seja um estudante.

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A relação entre Soichiro e Light também ficou mais distante. Embora dedicado ao trabalho, Soichiro sempre se preocupou com sua família. A morte de sua esposa em um hospital enquanto ele cuidava de um caso denota que o trabalho seria sempre mais importante. Talvez este seja um aspecto no qual o personagem tente se redimir no decorrer da série. Embora seja amável, Sachiko Yagami nunca teve peso na trama e sua ausência na série dificilmente influirá em algo.

Sayu como uma garota mimada e um tanto irritante não me agradou muito, porém esta é outra mudança que não deve influenciar os rumos da série.

Death-Note-Série-Live-Actio-Episódio-1-Misa-Amane

Hinako Sano (Misa Amane) até o momento parece ser o elo fraco do elenco. As reações de Misa ao ser informada que o assassino de seus pais seria libertado e depois ao descobrir que Kira o matara não ficaram muito convincentes.

Hinako iniciou sua carreira como gravure idol (modelo especializada em ensaios sensuais para o público masculino) e até então teve poucos trabalhos relevantes como atriz. Talvez sua performance melhore com os próximos episódios.

A caracterização de Near é bastante curiosa. Desta vez uma menina (Mio Yuki, de apenas 16 anos), Near acompanha desde o início o confronto entre L e Kira. Sua participação no enredo a esta altura ainda é uma incógnita. Conhecido por sua coleção de brinquedos, na série Near aparece manipulando nada menos que uma marionete de Mello.

A marionete seria alguma brincadeira de Near com seu grande rival? Mello seria um alter ego do próprio Near? Ou se trata realmente da adaptação do personagem na série?

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O roteiro é assinado por Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, os próprios autores do mangá, que talvez estejam usando a série para testar o que aconteceria caso tivessem escolhido outros rumos para o enredo.

Quanto à direção, a série não tem nem de longe todo o apelo visual do anime e o Ryuuku de CGI deixa a desejar, o que é compreensível devido às limitações de orçamento de uma produção japonesa.

Em suma, este primeiro episódio mostrou que a série foi produzida com o intuito de ser apreciada por seus próprios méritos e pode entreter razoavelmente se não levada muito a sério.

Death Note vai ao ar no Japão aos domingos e chega no Brasil pela Crunchyroll às quartas-feiras para assinantes. Os episódios são disponibilizados gratuitamente para não-assinantes após uma semana.

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