Durante o Anime Friends 2017 houve uma mesa redonda com representantes das editoras Panini, JBC e NewPOP, responsáveis por boa parte dos lançamentos de mangás no Brasil.

Entre diversos outros tópicos, os convidados falaram sobre os desafios da distribuição de seus títulos.

A DINAP, pertencente ao grupo Abril, detém o monopólio de distribuição de jornais, revistas e HQs em território nacional e seu modelo de operações sempre foi alvo de críticas de profissionais do mercado editorial nacional.

Além de reter até mais de 50% do valor de capa dos títulos à venda, a DINAP também repassa os valores devidos às editoras dentro de prazos nem sempre convenientes, muitas vezes através de parcelamentos.

E, para garantir que as obras alcancem todo o país, é necessária uma tiragem considerável, o que pode acarretar prejuízos no caso de encalhe devido ao sistema de consignação das bancas de jornais.

“A editora tem que calcular muito bem esta perda porque obviamente não vai vender tudo. Antigamente, quando o mangá vendia 25%, 30% da tiragem em banca, a editora já estava feliz”, diz Júnior Fonseca, fundador da NewPOP.

Isto, aliados a fatores como falta de cuidado no manuseio do material e falta de exposição apropriada nas bancas (onde mangás, jornais e revistas competem com doces, brinquedos e outros produtos que os jornaleiros se veem obrigados a vender para sobreviver), levaram a NewPOP a desistir das bancas definitivamente.

Desde 2016 a editora não distribui mais seus títulos em bancas de jornal, optando por vender somente em livrarias, lojas especializadas, eventos e em sua própria loja online.

“No caso da NewPOP, que tem uma equipe menor, tem uma estrutura menor, foi uma escolha  muito boa, porque eu diminui muito o meu custo mensal. Consegui maximizar minhas vendas nas lojas especializadas. Eu consegui com que meu público fosse aonde está o meu material”, explica Fonseca.

Além de representarem um custo menor de distribuição, livrarias, lojas especializadas e sites de e-commerce, como a Amazon, também são capazes de fornecer métricas mais precisas de projeção de vendas através das pré-vendas.

De acordo com Cassius Medauar, gerente de conteúdo da JBC, o icônico mangá Akira, publicado em uma edição de luxo para colecionadores, teve sua tiragem aumentada em 50% ainda durante a pré-venda para suprir a demanda de lançamento.

A JBC também conta com alguns títulos exclusivos para livrarias. No entanto, a editora não intenciona parar totalmente com a distribuição em bancas para evitar perder uma fatia de mercado. Compras online ainda não são viáveis para uma parcela considerável de leitores de regiões que enfrentam problemas com a ineficácia dos Correios e custo elevado de frete.

Ainda sim, a JBC se mantém aberta a novos modelos de negócios.

“A gente vislumbra a possibilidade de no futuro talvez não existir banca. Porque vem diminuindo o número de bancas no Brasil paulatinamente e a DINAP está permanentemente em crise. Então, se ela não se reinventar, eu não sei o que vai acontecer daqui 5 ou 10 anos. A gente tem que pensar no longo prazo”, diz Medauar.

Em 2016, a JBC anunciou a criação de Henshin Drive, uma plataforma digital de leitura de mangás, ainda sem previsão de lançamento.

Em relação à Panini, que detém os direitos de grandes títulos, como One Piece, Dragon Ball Naruto, a editora sênior Beth Kodama foi categórica: “O forte da Panini é banca e vai continuar sendo”.

Mesmo com as vantagens de outros modelos de distribuição, ainda há certa cautela para que gigantes como a Amazon e grandes cadeias varejistas não acabem monopolizando e inviabilizando o mercado como um todo.

Em relação ao mercado nacional de mangás de maneira geral, os representantes das editoras afirmaram que não houve um aumento na desconfiança dos licenciantes japoneses ou dificuldades extras para negociação de novos títulos perante a crise política e econômica enfrentada pelo Brasil.

No entanto, todos demonstram cautela para novas aquisições. “Não vamos retrair o número de títulos, mas a gente não vai expandir muito mais”, disse Beth Kodama.

Medauar afirmou que a JBC está mais focada em lançar títulos já anunciados ao invés de adquirir novas licenças, enquanto a NewPOP está ainda mais criteriosa na seleção dos títulos, projetando a viabilidade de cada mangá a longo prazo.

“O mercado estando em crise você precisa pensar sim no bolso do consumidor. Não adianta você entufar o mercado de mangás”, completou Júnior Fonseca.

 

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