Agora posso dizer que a sexta temporada de Fear the Walking Dead é uma das mais baianas, digo, preguiçosas da franquia morta-viva.

Não é difícil perceber que a estrutura antológica serviu mais para enrolar do que para fins narrativos, ocasionando em pouco desenvolvimento de tramas que chegaram a conclusões milagrosas ou tiradas da cartola, ou seja, a antologia foi um atalho para chegar nos pontos chaves da história.

The Beginning tinha o dever de lidar com um fim cataclísmico perfeito para varrer a renca de personagens inúteis da série, mas o que vi foi apenas outra ideia desperdiçada pela covardia dos showrunners.

A começar com a gigantesca contradição desse roteiro esburacado. Se a intenção era mostrar que mesmo perto do fim iminente o grupo ainda pode ajudar as pessoas (os Dorie tentam convencer Dakota a mudar de lado e Dwight e Sherry ajudam uma família a recuperar o porão roubado) então que o fizesse de outra forma porque a contradição fica nítida quando vemos que deixaram os amigos de longa data a deus-dará – e ninguém menciona ninguém durante o episódio a não ser Sarah preocupada com seu irmão (?).

Sherry e Dwight no 16º episódio da 6ª temporada de Fear The Walking Dead (S06E16 - "The Beginning").

E não, não venha dizer que era cada um por si, porque isso não é a cara do grupo unido que, detalhe, foi a razão de Morgan Jones continuar de pé nessa temporada. O grupo sempre foi unido ao ponto de nunca, NUNCA, erguer a mão ou dizer um “a” para contestar as ideias do líder, como se temessem que o ninja Zen cutucasse seus cus com o bastão de aikido, por se rebelarem.

Foi uma saída preguiçosa encontrada pelos showrunners para conseguir separá-los e expor o quão desleixados foram com a temporada.

Pegue o momento de absolvição dos Dorie para Dakota. Não é só uma extensão de minutagem que não leva a lugar nenhum, visto que Dakota e Teddy morrem, como também a descoberta de que Teddy pretendia viver trai toda a sua personalidade.

John Dorie Sr. no 16º episódio da 6ª temporada de Fear The Walking Dead (S06E16 - "The Beginning").

Cadê aquele Teddy que desafiou um homem armado em Motherreiterando que continuariam sua missão caso morresse, e ainda mostrou-se disposto ao sacrifício em sua missão prendendo Alicia em um bunker, como sinal de esperança?

Será que além de psicopata, Teddy também era um vidente que sabia que o show de Cole e a incompetência dos bons samaritanos para impedir o míssil não iria dar em nada? Óbvio que não. Isso foi um recurso tirado da bunda para que os Dorie saíssem de lá vivos.

Só digo parabéns aos showrunners por descaracterizarem o único vilão minimamente decente que criaram e jogar fora a suposta briga de velhos inimigos.

Mas não para por aí já que Daniel, como o bom farejador de Judas que é, descobre que Rollie – figurante aleatório – era um traidor só porque numa coincidência do destino ele menciona uma fênix, a mesma metáfora usada por Riley segundos antes, e senta o dedo nele. Adivinhem, Daniel mijou no escuro e acertou. Rollie era um traidor. Uau. Vou me fazer de surpreso e fingir de que isso adicionou algo a história.

Sarah, Charlie, Luciana, Jacob, Daniel e o helicóptero da CRM no 16º episódio da 6ª temporada de Fear The Walking Dead (S06E16 - "The Beginning").

Como se não bastasse, surge o CRM para salvar o dia, sendo que essa organização nunca foi citada antes… Ah, não, lembrei. Eles apareceram em Alaska e também foram mencionados em The Holding. Agora eu entendi. Agora eu saquei. Agora todas as peças se encaixaram. Muito espertos, showrunners… Falando sério, isso só prova meu ponto citado no começo do texto sobre conclusões tiradas da cartola.

O lado de Strand poderia ter um final poético se morresse com o nome de Morgan, só que o sujeito vive para abraçar seu lado vilanesco em um discurso para lá de expositivo que muito me lembrou vilões de desenho quando se gabam e expõe seus futuros planos, por tabela. Faltou enrolar o bigodinho e gargalhar para completar o clichê.

Victor Strand no 16º episódio da 6ª temporada de Fear The Walking Dead (S06E16 - "The Beginning").

Para encerrar com chave de ouro, Rachel, que burramente trouxe sua filha para zona de perigo no episódio passado e depois se bandeou para Deus saiba lá onde, surge fazendo a reedição do filme Cargo e ainda impedindo o suicido de Morgan e Grace, que, não satisfeitos, sobrevivem ao mesmo peido de velha que incinerou Dakota. Tudo isso para o episódio terminar de forma ambígua porque não pode faltar um cliffhanger, por mais sutil que ele seja, não é?

Queria apontar algo positivo na finale que muito tinha potencial, mas é difícil. Nem mesmo Michael Satrazemis está inspirado, não sabendo lidar com a elipse do começo que faz parecer que perdemos um episódio, com uma decupagem que Jim Towne não consegue manter consistente e a inserção desnecessária de subtítulos em vinhetas que mais lembram a propaganda da Jequiti.

Pois é, cagaram no pau.

Riley no 16º episódio da 6ª temporada de Fear The Walking Dead (S06E16 - "The Beginning").

Assim como todo o resto da temporada, The Beginning é sem graça, uma soma de todo o desleixo com o qual os showrunners trataram esse sexto ano, que parece muito mais um grande esboço do que eles verdadeiramente pensaram.

Se tenho esperanças para a sétima temporada? Não. E espero que seja a última para não ficar pior do que já está.

Nota: 2/5

Temporada: 3/5

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