Não precisa ser nenhum gênio para saber a ju$tifi$cativa desse spin-off jovial.

Afinal, a emissora vem se aproveitando do zumbiverso de Kirkman desde o segundo ano da série principal, que de 6 episódios saltou para 13 em uma trama arrastada na fazenda Greene porque queriam render mais com menos — e funcionou, pois hoje essa temporada é vista com bons olhos por grande parte do público.

Depois veio o mais arrastado 3° ano e mais tarde, o primeiro spin-off que se provou um desastre na 2ª temporada, mas hoje continua de pé trazendo mais besteirol à tela.

Logo, mais uma seriezinha para o universo não faria mal para os bolsos da emissora, não é?

E foi o que World Beyond se provou escancaradamente, onde quantidade falou mais alto que a qualidade, resultando em uma temporada regular em ritmo, mas nada além da mediocridade, com os bonzinhos Brave, The Blaze of Gory, Madman Across the Water, uma pequena subida em The Sky Is a Graveyard, um razoável The Tyger and the Lamb, os sofríveis The Wrong End of a Telescope e Shadow Puppets, chamando atenção somente com o ótimo Truth or Dare.

A AMC optou por uma dobradinha nos finalmente da temporada, como fez encurtando o terceiro ano — e melhor, diga-se de passagem — de Fear. Portanto, podemos encarar The Deepest Cut e In This Life como um longa-metragem que no decorrer do texto talvez eu encontre uma classificação para enquadra-los.

O nono episódio abre com um flashback mais aprofundado na revelação anterior, confirmando que além de espiã, Huck também é filha da tenente Elizabeth.

Em contrapartida, segue-se uma quase interminável sequência de flashbacks que buscam aprofundar a relação de Will, até então só citado na série, com Felix, a fim de trabalhar a confiança do personagem para assim permitir que Hope e Iris saiam debaixo de sua asa e continuem o caminho.

Por mais que a mensagem seja captada, o processo além de ter vindo tardio cai na chatice pela repetitividade, contribuída também pelo fato de ser uma insatisfação já sabida por nós em episódios anteriores e que aqui, não precisava de mais exposição. No fim, é apenas um artifício para prolongar a minutagem.

O mesmo vale para o lado de Elton, que seguindo sozinho passa por um processo de aceitação encarnada na figura de Percy, cujo ele encontra à beira da morte.

É uma sequência um pouco mais atrativa que a de Félix, pois coloca o garoto entre crer ou não no depois, seja rasgando as páginas de seu manuscrito, pela sua decepção com Hope e a incerteza sobre o que Silas fez, ou tentando salvar alguém que provavelmente morrerá. Tendo um desfecho que não fugiu da trilha cafona e uma sequência engraçada dele se livrando dos mortos.

Do outro lado, Iris ganha o Instinto Superior quando passa a suspeitar das ações de Huck. Pensei que Maya Goldsmith, assumindo o texto co-escrito por Ben Sokolowski, fosse para o caminho mais fácil quando Sidney Freeland inseriu o trecho que revelou Huck ferindo a patinha de Félix, ação que Iris possivelmente poderia ter presenciado.

Porém, os papéis inverteram de vez para as irmãs Bennett e Iris passou a ser a racional do momento, somando dois mais dois para perceber o quão desesperada Huck estava para se livrar de Félix.

Mas a inteligência rara de Hope, que foi eficiente para decifrar os códigos do CRM, não vê que quanto menor o grupo, maior a chance de dar B.O., e mesmo ciente da mensagem subliminar seguiu feliz ao lado da espiã.

In This Life, portanto, tinha a obrigação de colocar os pingos nos is e lidar com a turminha fragmentada de modo mais cadenciado possível. Porém, Matt Negrete não quis entregar tudo logo de cara e precisou que Magnus Martens, na cadeira da direção, entregasse tudo às miúdas, em uma extensão desnecessária de 50 minutos.

A começar pelo pequeno avanço no tempo que já une Elton e o moribundo Percy com Silas, formando um núcleo tão indiferente com uma conclusão bem anticlimática — se é que queriam causar algum clímax com aquilo.

Graças a interferência enjoativa da montagem, o heroísmo de Silas acaba sem nenhum peso aparente, servindo somente para deixar Elton e Percy sozinhos novamente.

Ou seja, o núcleo não faz diferença alguma e sua presença não passa de um mero filler. Podiam muito bem encerrar a temporada com o paradeiro de Silas em aberto e nos poupar dessa enrolação. Já que seu rapto só nos faz coçar a cabeça e pensar no motivo de não terem o matado. Afinal, os soldados estavam lá para cobrir os rastros deixados por Huck, certo?

Não contente com isso, temos o tête-à-tête de Hope e Huck onde o roteiro traz uma justificativa bem mequetrefe do porquê da jovem, aqui dita com o QI mais de oito mil, ter ido sozinha desmascarar a agente duplo.

O momento também abre espaço para expor as motivações do CRM, tentando explicar toda a volta que Huck deu para levar Hope até eles, mas falhando com sucesso, porque qualquer criança de 10 a 12 anos consegue pensar em algo melhor para realizar tal missão.

Provavelmente essa de Hope ser uma gênio incompreendida é só uma tática do roteiro para diminuir as especulações sobre sua possível imunidade ao vírus, ou simplesmente — espero que seja isso — um artifício para mascarar a real motivação da organização, que aqui, por intermédio de cenas desconjuntas de Leo Bennett, tem sua malignidade evidenciada com as dúvidas do sujeito sobre o sumiço de Will — fugindo na cena pós-crédito do episódio anterior — e o do Dr. Samuel Aabott, cobaia visto no pós-créditos do 4° episódio.

É bem capaz de que as “mentes brilhantes” tenham algum diferencial para serem estudadas e isso fará de Hope e Leo cobaias duplas lá na frente.

Pois creio que não seria à toa Matt Negrete tentar forçar ainda mais essa “virada” broxante a não ser para nos enganar, jogando o fim esperançoso de que Iris também é uma sabichona — o que é bem estranho se lembramos das pérolas que essa menina fez —, numa literal adaptação da frase “duas cabeças pensam melhor que uma.”

Caso seja uma pegadinha do malandro, ainda fica difícil de relevar quando só bastou Leo dizer o quão esperta é a filha para a Dra. Bellshaw sair à procura da jovem.

Além de que o caminho para essa genialidade ter sido bem vago — quase zero, eu diria. Nos obrigando a engolir que o estopim para o pai ver a filha como uma verdadeira gênio não foi resolvendo equações, nem descobrindo a fórmula para fazer um foguete viajar na velocidade da luz, tampouco desvendando se a Terra é plana ou não, mas sim vendo-a montar um computador. (Montadores da Rocketz, sempre acreditei em vocês).

Parece que os roteiristas simplesmente esqueceram de terem feito uma Hope capaz de produzir bombas com dipropilenoglicol e ácido tioglicólico, menção do 4° episódio, e jogaram qualquer coisa que acharam muito avançado para uma criança e pronto… Einstein!

Sobre o conflito na casa incendiada, por mais simples que poderia ter se resolvido, gostei de ver o embate de Félix e Huck, até bem registrado e com a coreografia tão próxima da realidade que chegou a ser cômico. Fazendo uma leve conexão com o tema confiança do nono episódio, aqui quebrada de vez com a dupla de ex-amigos.

O roteiro ainda deu margem para a possível virada de Huck, esta que não sabia do massacre na Campus Colony, mostrando o quão alheia a soldado está sobre os verdadeiros planos da mãe para com a família Bennett e o seu projeto reboot na humanidade.

Apesar dos pesares, o final da temporada foi aceitável para aqueles que não se deixaram levar pela emoção — creio eu ter sido a maioria do público que ansiou ver Rick Grimes em tela —, não traindo sua trajetória simplista com um cliffhanger apelativo, recurso que marca quase todas as finales do TWDu, amarrando suas pontas de modo desajeitado e abrindo um leque de possibilidades futuras (que particularmente, pouco me interessam).

Agora, cabe somente a Negrete trabalhar com o que foi deixado sem abusar de recursos batidos para esticar a trama até o limite do aceitável e usar um pouco do seu senso para fazer da próxima temporada o que essa não foi.

De agora em diante, continue por sua conta e risco.

The Deepest Cut: 2,5/5

In This Life: 3/5

Temporada: 3/5

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