Asirpa estava explicando como preparar cérebro de esquilo com a naturalidade de quem ensina a fazer arroz. E eu ali, completamente investida, pensando: “Que série é essa e por que ninguém me recomendou antes?”
Golden Kamuy é um seinen de 2018 ambientado em Hokkaido no pós-guerra russo-japonesa. Um ex-soldado chamado Sugimoto procura um ouro ainu cujo mapa está tatuado na pele de prisioneiros fugitivos. Ele se junta a Asirpa, uma garota ainu que conhece aquela terra como ninguém. Pronto. É tudo que você precisa saber se ainda não assistiu.
O lobo e o soldado que não morre

Sugimoto carrega o apelido de “Imortal” e uma promessa feita a um amigo morto durante a guerra. Dois pesos que, combinados, explicam quase tudo o que ele faz. Ele é violento quando precisa, porém descompromissado e até tranquilo em seu cotidiano.
Asirpa, por sua vez, não é coadjuvante. Não é a garota que o herói salva. Ela é a razão pela qual o herói sobrevive. Ela caça, rastreia, cozinha, ensina. Sugimoto tem a brutalidade; Asirpa tem o conhecimento. E a série nunca hierarquiza essas habilidades. Nunca faz a força bruta parecer mais valiosa que a sabedoria de quem sabe rastrear um urso na floresta. E isso é raro atualmente, não somente em anime, mas também em outras mídias.
O que fisga na relação dos dois é que o respeito mútuo é visível, mas nunca verbalizado. Em uma complementaridade sem didatismo, Sugimoto adota alguns dos costumes ainu quando necessário (quase sempre) sem reclamar, enquanto Asirpa confia nas decisões táticas dele.
E tem Retar, o último lobo de Hokkaido, extinto, como tantas coisas que a modernização japonesa deixou pelo caminho. O simbolismo não é sutil, e não precisa ser. Um animal que era sagrado para os ainu, transformado em símbolo de uma ausência. Sugimoto sobreviveu a uma guerra, mas a espécie de Retar não sobreviveu à paz. A ironia se escreve sozinha.
Shiraishi, o imprevisível necessário

A entrada de Shiraishi Yoshitake no grupo é o que transforma a dinâmica de Sugimoto e Asirpa. Ele é o alívio cômico, sim, mas é mais que isso.
Shiraishi é o personagem que ninguém confia completamente, incluindo o espectador. Ele funciona como agente duplo quase por natureza, não por maquiavelismo, mas por sobrevivência pura. Onde Sugimoto é leal até a morte e Asirpa é guiada por princípio, Shiraishi é guiado pelas circunstâncias.
E é exatamente essa imprevisibilidade que areja a narrativa. Sem ele, a relação Sugimoto-Asirpa correria o risco de ficar solene demais. Shiraishi lembra que numa busca por ouro com prisioneiros tatuados no meio da neve de Hokkaido, um pouco de caos é não só inevitável como bem-vindo.
Ele é o elemento de incerteza que impede o núcleo de protagonistas de se tornar estático ou previsível.
Hinna, hinna, comida como um idioma

Eu já tinha ouvido falar dos ainu e da Guerra Russo-Japonesa, mas da mesma forma que a gente ouve falar de muita coisa: o suficiente para reconhecer o nome, pouco demais para dizer qualquer coisa sobre o assunto. Golden Kamuy foi meu primeiro contato maior com esses aspectos da história e da cultura japonesa, e a representação me pareceu respeitosa aos meus olhos leigos. Saí da temporada com vontade de pesquisar mais, e isso já diz bastante sobre o trabalho que fizeram.
Para quem está acostumada a ver o Japão feudal ou a Segunda Guerra como cenário padrão de anime, Hokkaido no início do século XX é um respiro. Uma paisagem menos explorada, um povo que a narrativa dominante japonesa empurrou para as margens, uma guerra que no Ocidente quase ninguém estuda.
As cenas de caça e culinária, que em outro anime seriam filler, aqui são essenciais. Asirpa não cozinha para preencher tempo de tela. Ela cozinha porque é assim que se transmite cultura. É assim que se diz “eu existo, meu povo existe, a nossa forma de viver tem valor”. O hinna, hinna, a expressão ainu de gratidão pelo alimento, é repetido ao longo dos episódios como um ritual. E funciona como um.
A triangulação que eleva a trama

Golden Kamuy poderia ser só a dupla Sugimoto-Asirpa contra o mundo e isso bastaria para sustentar a história. Mas a série não se contenta com isso e incorpora forças externas que multiplicam as camadas de intriga e rivalidade.
Começando com Tsurumi, o tenente da 7ª Divisão, com seu cérebro literalmente vazando por uma placa de metal na testa. Ele é carismático do jeito que líderes perigosos costumam ser, justamente porque a loucura o torna magnético, não apesar dela. Ele é o tipo de antagonista que você não admira, mas entende por que os personagens o respeitam.
Quando Sugimoto é capturado no episódio 4, Tsurumi o interroga em uma conversa quase amistosa. Ele elogia a fama do “Imortal” e mantém um ar descontraído enquanto Sugimoto nega não somente sua identidade como qualquer ligação com a busca pelo ouro.
A expectativa gerada por essa falsa tranquilidade segura o espectador, até o momento em que Tsurumi enfia o palito de dango que estava comendo na boca de Sugimoto, mudando totalmente o tom da cena.

Há também Hijikata Toshizo, figura histórica real, o último comandante do Shinsengumi, que a série reimagina.
O velho samurai ainda arquiteta planos como se estivesse comandando o Shinsengumi, só que agora o campo tem metralhadoras em vez de katanas. Hijikata não vive de nostalgia do passado, ele simplesmente acha que o passado ainda não acabou. E essa teimosia, em vez de torná-lo obsoleto, é o que o torna perigoso.
A triangulação entre esses três polos, Tsurumi, Hijikata e a dupla Sugimoto-Asirpa, é o que dá à primeira temporada uma arquitetura narrativa que vai muito além de “quem acha o ouro primeiro”. São três visões de mundo competindo pelo mesmo espólio, e cada uma carrega suas razões e suas feridas.
O abismo entre o traço e o 3D

Preciso falar da animação. Infelizmente há alguns problemas que não podem ser ignorados.
Os ursos em CGI são ruins. Não “ruins mas aceitáveis” ou “ruins mas você se acostuma”. São ruins do tipo que quebram a cena.
Em um momento de alta tensão no terceiro episódio, Sugimoto é encurralado por soldados da 7ª Divisão em uma encosta nevada em frente à toca de um urso hibernante. Quando os soldados decidem atirar em seus joelhos, Sugimoto toma a decisão desesperada de mergulhar para dentro da toca.
Os soldados disparam contra a toca e acabam acordando um urso, que sai do buraco em fúria e estraçalha o cerco, transformando a captura de Sugimoto em uma carnificina generalizada.
É uma das sequências mais tensas da temporada. Deveria ser inesquecível. E é, só que em parte pelo motivo errado. Porque quando o urso finalmente aparece, ele parece ter saído de um videogame de 2005.
Isso é frustrante porque o resto funciona. O design dos personagens é ótimo, as paisagens de Hokkaido têm personalidade, as cenas de ação corpo-a-corpo são viscerais. A Geno Studio investiu onde podia e improvisou onde não podia. Só que quando o improviso aparece, ele te arranca da história no pior momento possível.
A trilha sonora, pelo menos, compensa. Winding Road, do MAN WITH A MISSION, é daquelas aberturas que você não pula. Tem uma energia de faroeste que casa com o espírito da série inteira.
O ouro que não é ouro

Ao fim da primeira temporada, o tesouro ainda move a trama, mas não a define.
O que o anime realmente coloca em jogo é o choque cultural, as sequelas de veteranos que tentam encontrar sentido depois da guerra e a resistência diante da modernização.
Sim, a animação tropeça no CGI precário e o ritmo se torna um pouco maçante em alguns dos episódios do meio da temporada. Ainda assim, a série consegue ser brutal e engraçada (às vezes no mesmo minuto), além de surpreendentemente generosa com cada personagem que coloca em cena.
E, no final, é a força desses personagens dentro daquele contexto e a dinâmica entre as facções que sustentam Golden Kamuy.
Nota: 7.8








