A decisão da Sony de encerrar a produção de discos físicos para novos jogos de PlayStation em janeiro de 2028 pode esvaziar o mercado global de jogos de segunda mão, avaliado em US$ 7,2 bilhões em 2025 pela consultoria Dataintelo. A projeção é de analistas ouvidos pela CNBC.
A Sony Interactive Entertainment anunciou a mudança em 1º de julho. A partir de janeiro de 2028, lançamentos inéditos para consoles PlayStation passam a ser vendidos apenas em formato digital, na PlayStation Store e em varejistas parceiros. As caixas que continuarem nas prateleiras devem trazer somente um código de download. Títulos já lançados em disco, ou que chegarem ao varejo antes do corte, não são afetados.
O número da Dataintelo cobre jogos, consoles, acessórios e periféricos usados. Antes do anúncio da Sony, a consultoria projetava que o segmento chegaria a US$ 13,8 bilhões até 2034.
“O varejo físico de games está condenado”
Michael Pachter, diretor-gerente de planejamento estratégico da Wedbush Securities, disse à CNBC que pelo menos um terço dos jogos foi historicamente vendido como usado e que essas transações funcionavam como moeda para a compra de novos títulos. “O varejo físico de games está condenado”, afirmou.
Para Pachter, a mudança reduz custos da Sony, mas transfere a conta ao consumidor na forma de menos opções. Um disco pode ser revendido, trocado, emprestado, presenteado ou preservado mesmo depois que uma loja digital fecha. Um código de download não permite nenhuma dessas ações.
Kazunori Ito, diretor de pesquisa em ações da Morningstar, projeta que o mercado de usados vai encolher até desaparecer. Discos antigos seguem circulando entre colecionadores e lojas, mas sem reposição de títulos novos.
Michael Futter, fundador da consultoria F-Squared, foi mais direto e classificou a medida como prejudicial ao consumidor e sem justificativa legítima. Ele rejeita a comparação com o PC, onde a mídia física desapareceu anos atrás: consoles operam em ecossistemas fechados, controlados pelo fabricante, enquanto no computador o mesmo jogo circula entre Steam, Epic Games Store, GOG e outras lojas. Segundo Futter, isso também reduz a margem de manobra dos desenvolvedores para aplicar descontos.
Sony usou os jogos usados como argumento em 2013
Em junho de 2013, o PlayStation publicou um vídeo em que o então executivo Shuhei Yoshida entregava um disco de PS4 ao colega Adam Boyes. A peça foi lida como provocação à Microsoft, que naquele momento defendia regras rígidas de compartilhamento no Xbox e recuou depois da reação negativa.
Na mesma época, Jack Tretton, então presidente e CEO da Sony Computer Entertainment America, afirmou em conferência que o comprador de um disco de PS4 tinha o direito de trocá-lo, revendê-lo, emprestá-lo ou guardá-lo para sempre.
Ito chamou a situação atual de reviravolta irônica, já que a Sony conquistou boa vontade ao apresentar o disco como a alternativa favorável ao consumidor. A repercussão negativa da comunidade resgatou esses vídeos antigos nas redes sociais.
Digital já responde por quase toda a receita
Os resultados da Sony referentes a 2025 mostram que a receita com jogos físicos de PS4 e PS5 é cerca de dez vezes menor que a obtida com downloads digitais de jogos completos. No comunicado oficial, a empresa afirmou que a decisão acompanha as tendências de consumo, já que a preferência por mídia digital supera de forma significativa a demanda por discos.
Grand Theft Auto VI, previsto para 19 de novembro de 2026, deve ser um dos primeiros grandes lançamentos vendidos em caixa apenas com código de download.
Futter e Ito levantaram uma preocupação adicional sobre o alcance da medida. A Sony encerrará as compras na PlayStation Store de PS3 e PS Vita na maior parte dos países em julho de 2027, e mais de 500 filmes comprados por usuários já foram removidos de bibliotecas do PlayStation por causa de acordos de licenciamento, sem menção a compensação. Para Ito, há diferença entre o jogador aceitar a transição por enxergar valor nela e ser empurrado a ela pela eliminação da alternativa.
A Sony e o PlayStation não responderam aos pedidos de comentário enviados pela CNBC.








